17.8.07

Estética caseira

Depois de comer o equivalente a dois pacotinhos médios de amendoins crocantes -que não são dos japoneses- durante a semana, ela senta a bunda gorda e mole na cadeira do computador, com a intenção de pesquisar algumas receitas caseiras de esfoliante para o rosto, de preferência com ingredientes que já existam em casa, nada muito estravagante, economizar é o fundamento número Um daqueles que têm  bolsos furados.

 

Encontrada a receita mais simples, sem muita fé e disposição, não se mobiliza para pôr em prática as novas dicas de beleza. Continua então sentada na frente do computador gastando assunto com qualquer pessoa que não tinha nada de interessante a lhe dizer e vice-versa. Assim se passa toda a tarde.

 

Ela lembrava que precisava fazer depilação em partes delicadas do corpo -o bigodinho- mas pensava  na dor. Lembrava também que suas sombrancelhas estavam cruéis. Antes do sol se pôr, cortou a conversa com qualquer desculpa, ou sem, dizendo simplesmente "Tô saindo. Beijo!". Foi até o quarto, ascendeu a luz, ficou de pé em frente ao espelho, e com um ótimo senso de desenho, tirou os pêlos desnecessários que lhe cobriam a face a cima dos olhos.

 

Escurecia quando tomou banho. Vestiu o pijama de malha com bonequinhas estampadas e dormiu. O dia seguinte já estava mais próximo da sexta-feira, do final de semana. Suas unhas roídas cresciam lentamente num sentido nada segmentado, isso a preocupava, mas não muito, afinal "Quem é que repara em unhas?" ela pensava, em seguida respondia a si mesma "Eu olho!", mas nada fazia para mudar as suas.

 

O período do início da tarde foi usado para fazer um social, talvez conhecer novos amigos, talvez não agora, mas daqui umas semanas. Quem sabe? O primeiro dia, segundo ela, foi bem interessante, deixou nela vontade de repetir mais vezes o que fizera naquele início de tarde.

 

Chegando em casa não perdeu muito tempo. Fez logo seus afazeres acadêmicos e programou o final de semana.  Fez ligações, respondeu email e scraps, deixou mensagens offline, mandou curriculos, comeu metade de um pão francês com requeijão e foi tomar banho. Antes do banho lembrou-se da receita de esfoliante caseiro que pegou num site da internet: Mel, hidratante e açúcar. Bem estranho, mas não custa tentar, "E se me der reação alérgica? Ferrô! Acabou com o meu final de semana!"

 

Esfrega a meleca na cara, começa a arder os olhos "Ai meu deus! Agora já era!", tirou com pressa a mistura dos olhos, desistiu de passar na frente do espelho, levou o potinho pra dentro do box do chuveiro e terminou de esfoliar a pele lá mesmo. Entrou no chuveiro, lavou os cabelos.

 

"Ai droga! Está secando!" pensava ela quando via as primeiras mechas do cabelo começarem a encaracolar suavemente. Pegou o secador, a chapinha, um pente e uma escova e foi para o quarto. Mais um ritual caseiro de estética. Qual seria o próximo passo depois da escova com chapinha? Só faltava massagem! "Ah! Não passei creme na perna!" ela pensou depois que terminou de alisar os cabelos castanhos. Foi até o banheiro, pegou o frasco do creme hidratante infantil -para não irritar a pele sensível- e passou no corpo, afinal, inverno resseca muito a pele.

 

A televisão do quarto ligada, passando as manchetes do dia no jornal daquela hora, nada de novo, mas ela parou para ver. A mania de roer unhas não foi evitada. Quando se deu conta todas suas unhas já estavam piores do que antes. E ai sim "Já era! Depois eu lixo!"

 

Uma última olhada no que os amendoins lhe causaram na frente do espelho, uma tentativa fracassada de elimina-los e uma solução rápida e sem erro para o final de semana: base e pó! Base e pó!

 

Pensa que é fácil ser mulher?

 

Foto na HappyNewes.

criado por le_dj    21:54 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por Giancarlo — 18.8.07 @ 1:41

    haheahea que legal, gostei!

    Vou botar seu blog nos meus favoritos, posso?
    É claro que posso…

    Boa sorte com as unhas.

  2. Comentário por Dedé — 23.8.07 @ 18:47

    Quando li sobre o esfoliante, já iria indicar o do mel com açúcar. mas eu conheço com um pouco d’água. E quando passar no rosto, fecha os olhos p/ não arder de novo, ok? rs

    Não é fácil ser humano, isso sim. Eu acho a vaidade um tanto quanto desnecessária. O professor de antropologia diria que é um ritual não-religioso para ter um espaço na sociedade.
    Eu faço o minímo: banho, pentear o cabelo e tudo q se remete a higiene. Quase uma índia.

    Qnt ao post anterior, q não estava sabendo da sua existência, digo q ficar sozinha, faz bem e tudo mais, como disse o Shykó. Mas se sentir sozinha é diferente. Procure deixar isso para lá, ok? Isso é falta de beijo. Pq de amigos e companheiros, vc tem um monte.

    Beijos para curar sua solidão.

  3. Comentário por Shykó — 23.8.07 @ 23:14

    Lelê, muito bem conduzido o texto. Divertido, leve, suave, não dá vontade de parar… a banalidade de uma rotina diária se transforma numa narrativa muito bem escrita.

    Parabéns…

    Bjos

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